quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Entendendo Parmênides

.. e tentando defender Heráclito.

“Em uma assembléia, um argumentador defende a opinião de que a guerra é boa para nós; enquanto outro defende a opinião contrária. Vencerá aquele que melhor souber persuadir a opinião alheira, e não a melhor idéia.”

            Pode até ser que não existe “não ser”; que as coisas e os seres sejam essencialmente imutáveis e que a mobilidade não passe de mera ilusão.  Mas, ainda que seja no campo da opinião, os homens precisam achar que são capazes de evoluir e de se modificarem.
            Durante vinte e quatro horas dos seus dias e de trezentos e sessenta e cinco dias dos seus anos, o homem está olhando para o futuro acreditando que tudo vai ser diferente, que nada do que ele faz é em vão e que ele só caminha porque vai chegar a algum lugar. Segundo Parmênides em 99% do seu cotidiano o homem vive no plano da opinião, do “achismo”, e não procura conhecer a verdade dos fatos. Mas espera aí?! Já imaginou se pelo menos 50% das pessoas passassem o dia a refletir, tentando encontrar fatos concretos e percebessem que tudo é estável, que tudo não passa de opinião, que a vida é um círculo sem fim, e que ela não vai chegar a lugar algum?! É, de fato, é melhor ficar no plano dos conceitos leigos, nos quais compreende-se que tudo passa, que tudo flui.
            Eu acordo todos os dias achando que mudei, sentindo saudade de algumas coisas que fui e não sou mais, e tendo a certeza de que sou um banco de dados, que vem recebendo informações, acumulando conteúdos e formando opiniões ao longo desses 21 anos. Se eu estou feliz de estar onde estou?! Claro! Porque tenho a certeza que continuo caminhando e que amanhã não serei mais a mesma e nem meus caminhos serão mais os mesmos; afinal de contas, defendendo Heráclito, uma mesma pessoa não pode cruzar a mesma rua duas vezes. 
 - Marina

pra combinar com meu mobilismo :


quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Curiosidade

(...) E ali estava um fato incontestável para ela, que olhava a diante como se tivesse descoberto o mundo: não eram os caminhos que se cruzavam, era ele que insistia em andar sobre seus caminhos, feito alguém que não sabe para onde vai, mas sente-se seguro ao apoiar-se em alguma coisa.

significado de coisa - tudo o que existe; todo ser inanimado, animado, real ou aparente.
anagrama de coisa -  cisão.  significado: separação, rompimento.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Por que amamos alguém?

   




Um dia li em algum lugar a explicação de porque amamos alguém, o texto não era detalhado, mas falava algo sobre honestidade, caráter e bom gosto. Dizia que não amamos alguém por ser educado ou por ser fã do Caetano Veloso, que esse tipo de coisa é apenas referência, que na verdade o que nos leva a amar é o mistério e o fascínio que alguém nos provoca.
Concordei em parte. É claro que precisamos nos sentir fascinados, e atraídos por algum tipo de mistério, mas há coisas que são muito mais significantes e que não podem ser vistas apenas como referências, dentre elas há duas que me encantam: a coragem e a inteligência, não necessariamente nesta respectiva ordem de importância.

Quando falo de coragem, que isso fique bem claro, não me refiro a um super-homem, com super poderes que aparece sempre que precisamos, luta contra os piores malfeitores e nos livra dos piores apuros. Quando falo de coragem quero dizer sobre aqueles que ‘não tem medo’, que encaram a vida como uma grande aventura única, que acreditam nos seus sonhos, que são fortes para lutar e para conquistar tudo aquilo que desejam.  Admiro aqueles que sabem o que querem e que acreditam que querer é poder, não havendo nada no mundo que possa impedi-los de chegar onde anseiam.

Tomando a liberdade de parafrasear Vinícius de Moraes eu diria: os muito burros que me perdoem, mas a inteligência é fundamental. Quem nunca ouviu dizer que inteligência é afrodisíaco? Não há nada mais charmoso na face da Terra do que uma pessoa que saiba falar de qualquer coisa e que tenha opinião (sem impô-la, claro) sobre diversos assuntos. Não sei se é porque eu tenho verdadeira 'birra' de ficar inventando argumentos e 'esticando papo' pra estabelecer um diálogo legal, que, pra mim, não há nada mais confortável que um homem que saiba conversar, que saiba ser fluente e deixar as coisas rolarem.
Agradar as mulheres não é difícil, pelo contrário, tudo o que as mulheres querem são homens inteligentes, que saibam ser divertidos com frequência, sérios quando conveniente, sistemáticos quase nunca, discretos quase sempre e brutos quando necessário.

Mudando um pouco de foco, há algo que é extremamente relevante e que eu não posso deixar de mencionar. Eu já ouvi dizer que toda mulher sabe se tem alguma probabilidade do relacionamento dar certo, a partir do primeiro beijo. Pode até ser que isso funcione ou que tenha algum fundamento lógico, afinal ninguém quer continuar saindo com alguém cujo beijo é ruim, mas o que realmente importa pra mim, até mesmo antes do primeiro contato bucal, é a compatibilidade do abraço. Nunca tive um relacionamento que durasse se o abraço fosse incomodo ou desconfortável.
Uma vez saí com um garoto que me enforcava toda vez que ia me abraçar. Ele me abraçava de gancho, com apenas um braço; desisti dele antes mesmo de beijá-lo. Em outra ocasião saí com garoto que era bem alto e que me abraçava pelos ombros apertando minhas costelas e eu tinha que ficar mirando o teto para conseguir respirar. Este foi só mais um que tentou me matar, nosso relacionamento durou pouco mais de três semanas. Quando meus relacionamentos duraram de verdade foi quando num fechar de braços eu me senti em casa, foi quando cada canto do meu corpo encontrou uma brecha para se acomodar no corpo de lá; foi quando eu senti que o mundo podia desabar lá fora que eu estaria protegida ali.

Sinceramente, acho que não sei por que amamos alguém. Vai ver existem coisas que são apenas referências, ou vai ver o que realmente importa é o jogo de mistérios. Definitivamente, eu não sou a melhor pessoa para falar de amor, muito menos pra definir este sentimento pra mim. Mas referências ou não, sou simples assim como aquilo que me encanta: coragem, inteligência e um bom par de braços.

- Marina 

Fragmento II

' (...) Verdes e nauseados, eles não saberiam exprimir. A casa simbolizava alguma coisa que eles jamais poderiam alcançar, mesmo com toda uma vida  de procura de expressão. Procurar expressão, por uma vida inteira que fosse, seria em si um divertimento, amargo e perplexo, mas divertimento, e seria uma divergência que pouco a pouco os afastaria da perigosa verdade - e os salvaria. Logo eles que, na desesperada aspereza de sobreviver, já tinham inventado para eles mesmos um futuro: ambos iam ser escritores, e com uma determinação tão obstinada como se exprimir a alma a suprimisse enfim. E se não suprimisse, seria um modo de só saber que se mente na solidão do próprio coração. ' 
 (Clarice Lispector - Felicidade Clandestina; conto: A Mensagem  -  p.130)

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Projeção


Naquele dia ela acordou desejando freneticamente que alguém munido de uma supra inteligência tivesse desenvolvido uma tecnologia que a possibilitasse voltar no tempo. Levantou-se apressada, ligou a TV, assistiu o noticiário, e nada. Voltou ao seu quarto, abriu uma das gavetas da cômoda na qual guardava seus diários, escolheu um deles aleatoriamente, abriu uma página e leu alguns trechos. Fechou os olhos apertando ligeiramente as pálpebras esperando que alguma coisa acontecesse, mas nada aconteceu. Então, reabriu os olhos e se viu ali, uma mulher estúpida de vinte e poucos anos, sentada em uma cama pequena de um quarto pequeno, de uma casa pequena em uma rua pequena, de uma cidade pequena de um mundo gigante. Sentiu que era apenas uma mulher estúpida querendo voltar a ser criança.
“Que saudade de mim, de quando tinha nove anos” - pensou. “Quando eu tinha esta idade, sabia exatamente o que estava fazendo e tinha certeza de onde eu iria chegar. Quando eu tinha nove anos, me sentia forte e madura, havia um brilho estranho no meu olhar e um sorriso entusiasmado no meu rosto. Hoje sou apática e fraca, minhas pernas mal suportam o peso do meu copo e há  qualquer coisa com o peso de um mundo instalado nas minhas costas. Hoje eu não faço a menor idéia de pra onde estou indo e tenho sérias dúvidas se vou conseguir chegar em algum lugar.” - Depois de um ou dois minutos olhando pros retratos que ficavam sobre a escrivaninha, ela colocou a mão sobre os olhos e esperou que acontecesse. Logo, logo vieram os soluços e a respiração ficou ofegante, várias lágrimas despencaram e molharam os dedos que tentavam esconder aquele rosto gélido e sofrido de uma criança que acordara de repente e percebera que havia um universo lá fora, com pessoas e seres estranhos que exigiam dela algo muito além do que ela estava preparada para oferecer. Quis se esconder. Debaixo da cama talvez fosse o melhor lugar. Entretanto, apenas se virou, deitou-se e ficou a admirar o teto por alguns segundos.  
Sentiu falta  de quando o seu maior medo era o escuro.  Sentiu saudade de quando os desafios eram nadar até a grade da lagoa ou atravessar a piscinona do clube. Sentiu saudade do tempo que  não tinha responsabilidades e de quando ficava a tarde inteira de pernas pro ar vendo Pica-pau, Tom e Jarry, Pateta e Max, Mickey e Donald, comendo fandangos,  e aquilo não lhe trazia uma imensa sensação de culpa.  Sentiu saudade de pensar ‘no que seria quando crescesse’ e desejou, por um momento, esquecer que havia crescido.
Sentiu saudades de quando as pessoas confiavam nela, de quando era uma das primeiras da turma, certamente premiada no final do ano pelas boas notas. Sentiu saudade de quando a cidade era pequena demais, e de quando ela acreditava que tinha asas e que poderia voar. Sentiu saudade do tempo em que lhe denominavam ‘a artista’, ‘a cheia de talentos e a de futuro brilhante’. Sentiu saudade dos palcos, da criatividade e dos sorrisos. Sentiu falta dos amigos que deixara lá atrás, em algum lugar. Sentiu falta do que era e repugnou aquilo que havia se tornado.
Ergueu-se lentamente, como se fosse uma rocha e alguém estivesse a guinchá-la. Foi até o banheiro, jogou um pouco de água no rosto e viu sua imagem refletida no espelho.  “Cadê a arte que estava em mim?”  - pensou. “O gato comeu ou o tempo levou? Não me reconheço mais quando me olho no espelho. Ques olhos sem brilho são estes que me fitam? Onde foi parar aquela criança que acreditava que tudo era possível?” - Magicamente a imagem se mexeu e foi se dissolvendo paulatinamente até que ela percebeu que alguém com um sorriso tímido a admirava. Era uma criança de nove ou dez anos, pele clara, cabelos cacheados que escorriam pelos ombros, um ar de autoestima elevado e confiança. A imagem mais uma vez se dissolveu, e aos poucos, com certa dificuldade, outra foi se formando. Desta vez uma senhora de uns sessenta anos, cabelos curtos e mal pintados, com um olhar triste e frustrado, olhou para ela. Quando a percebeu ali, a mulher cerrou os olhos e havia raiva neles, como se culpassem a jovem de alguma coisa. Ela tentou dizer “sinto muito”, “não foi minha culpa”, mas a mulher se fora, a imagem havia sumido, e tudo que ela viu diante de si foram seus olhos cheios de medo - sentimento este, aliás, era o único que sabia sentir há dias – novamente no espelho.

 - Marina


Pra combinar:


segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Fragmento

'(...)Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria - e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. é porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. É porque eu sou muito possessiva e então me foi perguntado com alguma ironia se eu também queria o rato pra mim.' 
( Clarice Lispector - Felicidade Clandestina; conto: Perdoando Deus -  p.43,44 )


terça-feira, 5 de julho de 2011

Estatística Solidária

             Na última quinta-feira, dia 30,  Arthur Domâcio de 5 anos faleceu vítima de leucemia, no Hospital das Clínicas de São Paulo. O garoto havia se tornado símbolo da campanha ‘ 5ml de esperança’ que comoveu todo o estado de Minas Gerais e atingiu números recordes no cadastramento de doadores de medula óssea. Só em Patos de Minas, cidade natal do pequeno Arthur, foram feitos 1700 cadastros em um único dia.
            Em pouco mais de três meses foram feitos 30 mil cadastros no estado de Minas Gerais sendo 4 mil na cidade de Patos de Minas. Estatística histórica.
            Porém, se partirmos do princípio que de acordo com os dados do IBGE – Censo 2010 a população brasileira atual é de 190.732.694 habitantes, que Minas Gerais é o segundo estado mais populoso do Brasil, quase 20 milhões de habitantes e que  Patos de Minas é a 16ª cidade do estado em população com 138.836 habitantes; este número ainda é muito pequeno.
            Encontrar um doador compatível é praticamente impossível. Arthur lutou contra o seu câncer desde os 2 anos de idade, milhares de cadastros foram feitos nestes três anos e mesmo assim ele não conseguiu encontrar um doador. Quanto mais cadastros forem feitos, maior será a chance de encontrar essa ‘agulha no palheiro’.
            O anjinho Arthur se foi, mas a campanha não pode parar. Eu sou doadora de medula óssea, seja você também um doador de esperança! 

 - Marina 

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Preferências

 Nota de explicação:
               Sinceramente, eu não sei explicar como o poema da postagem anterior não foi a primeira postagem deste blog, uma vez que ele é, sem sombra de dúvidas, o meu preferido. Acho que gosto primeiro daquilo que me intriga, depois daquilo que não entendo e por fim daquilo que tento explicar. Este poema mexeu comigo na primeira vez que eu o li, e apesar do tamanho, me lembro que reli umas cinco vezes naquele dia. Cheguei a pedir um professor na Universidade que fizéssemos uma análise sobre ele, mas nunca sobrou tempo. 
            Acho que todo ser humano, se identifica com esse poema em pelo menos um momento de suas vidas. Eu me identifico com ele a todo momento; ora com o poema todo, ora em partes, eu o acho simplesmente magnífico, perfeito! 

'Se eu fosse mulher cada poema de Álvaro de Campos
seria um alarme para a vizinhança. 
Mas sou homem - e nos homens a histeria 
assume principalmente aspectos mentais;
Assim tudo acaba em silêncio e poesia... '

                                          Fernando Pessoa 


Pra quem tem preguiça de ler: 


                                                                                     obs: português de Portugal 

TABACARIA

    Não sou nada.
    Nunca serei nada.
    Não posso querer ser nada.
    À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


    Janelas do meu quarto,
    Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
    (E se soubessem quem é, o que saberiam?),
    Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
    Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
    Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
    Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
    Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
    Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.


    Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
    Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
    E não tivesse mais irmandade com as coisas
    Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
    A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
    De dentro da minha cabeça,
    E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.


    Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
    Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
    À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
    E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.


    Falhei em tudo.
    Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
    A aprendizagem que me deram,
    Desci dela pela janela das traseiras da casa.
    Fui até ao campo com grandes propósitos.
    Mas lá encontrei só ervas e árvores,
    E quando havia gente era igual à outra.
    Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?


    Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
    Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
    E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
    Gênio? Neste momento
    Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
    E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
    Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
    Não, não creio em mim.
    Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
    Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
    Não, nem em mim...
    Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
    Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
    Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
    Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
    E quem sabe se realizáveis,
    Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
    O mundo é para quem nasce para o conquistar
    E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
    Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
    Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
    Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
    Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
    Ainda que não more nela;
    Serei sempre o que não nasceu para isso;
    Serei sempre só o que tinha qualidades;
    Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
    E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
    E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
    Crer em mim? Não, nem em nada.
    Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
    O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
    E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
    Escravos cardíacos das estrelas,
    Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
    Mas acordamos e ele é opaco,
    Levantamo-nos e ele é alheio,
    Saímos de casa e ele é a terra inteira,
    Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.


    (Come chocolates, pequena;
    Come chocolates!
    Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
    Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
    Come, pequena suja, come!
    Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
    Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
    Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)


    Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
    A caligrafia rápida destes versos,
    Pórtico partido para o Impossível.
    Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
    Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
    A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
    E fico em casa sem camisa.


    (Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
    Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
    Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
    Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
    Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
    Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
    Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
    Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
    Meu coração é um balde despejado.
    Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
    A mim mesmo e não encontro nada.
    Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
    Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
    Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
    Vejo os cães que também existem,
    E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
    E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)


    Vivi, estudei, amei e até cri,
    E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
    Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
    E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
    (Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
    Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
    E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente


    Fiz de mim o que não soube
    E o que podia fazer de mim não o fiz.
    O dominó que vesti era errado.
    Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
    Quando quis tirar a máscara,
    Estava pegada à cara.
    Quando a tirei e me vi ao espelho,
    Já tinha envelhecido.
    Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
    Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
    Como um cão tolerado pela gerência
    Por ser inofensivo
    E vou escrever esta história para provar que sou sublime.


    Essência musical dos meus versos inúteis,
    Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
    E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
    Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
    Como um tapete em que um bêbado tropeça
    Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.


    Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
    Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
    E com o desconforto da alma mal-entendendo.
    Ele morrerá e eu morrerei.
    Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
    A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
    Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
    E a língua em que foram escritos os versos.
    Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
    Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
    Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,


    Sempre uma coisa defronte da outra,
    Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
    Sempre o impossível tão estúpido como o real,
    Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
    Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.


    Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
    E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
    Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
    E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.


    Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
    E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
    Sigo o fumo como uma rota própria,
    E gozo, num momento sensitivo e competente,
    A libertação de todas as especulações
    E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.


    Depois deito-me para trás na cadeira
    E continuo fumando.
    Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.


    (Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
    Talvez fosse feliz.)
    Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
    O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
    Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
    (O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
    Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
    Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
    Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.



    - Álvaro de Campos 

      terça-feira, 28 de junho de 2011

      Escolhas


      Quantas vezes nos pegamos em uma encruzilhada sem saber que caminho tomar?!

                   Eu sempre fui daquelas inconformadas com a realidade que queria conquistar o mundo a bordo de um navio pirata, correr todos os riscos e no final olhar pra trás e perceber o quanto eu fui capaz de ir longe na vida.
                Acontece que pode ser que um dia a vida lhe ofereça um navio e  que dependa só de você embarcar ou não, correr os riscos ou não, vencer na vida ou não. A partir de hoje eu tenho apenas mais uma semana pra agarrar uma oportunidade ou deixar o navio partir...

             Hoje eu recebi um e-mail da UFRJ que dizia: "prezado aluno é com prazer que lhe convidamos para a reinauguração do busto de Candido de Oliveira, patrono da CACO e um dos alicerces da Faculdade Nacional de Direito, na praça do largo da CACO do qual foi retirado a mais de três anos."
               Por um momento eu me senti incluida em um meio, fazendo parte da história, como se eu já estivesse lá .. no instante seguinte eu estava aqui denovo, na mesma sala, olhando pela mesma janela, no meu mundinho sem mar e sem navios.

              Eu fiz a minha escolha, correta ou não, estou presa à ela. Há momentos que enxergo o horizonte e por enxergá-lo sei que é este o meu caminho. Porém há outros momentos que sinto que estou onde estou motivada por tantas escolhas erradas, pela simples falta de coragem e de não acreditar em mim mesma... 

      Está decidido!.. 
      Eu vou deixar esse navio partir...
      rezando para que outros ancorem no meu porto.
       
      - Marina 

      
      

      sexta-feira, 24 de junho de 2011

      Somos como cascas de ovos




      Tenho refletido muito sobre a fragilidade do corpo humano, sobre como somos vulneráveis, frágeis e quebradiços.
      Há uma linha que separa o ser e o não ser, o agora e o nunca mais. Somos apenas almas pensantes e sentimentais protegidas por uma casca de ovo. Por que não aço? Ferro ou qualquer metal impenetrável? Viver é um risco!
      Tínhamos que nos levantar todos os dias e nos vestir como se fossemos para uma guerra. Colocar armaduras, coletes a prova de balas e capacetes, ao invés de calça jeans, camisetas e bonés.
      Há três meses eu conversava com um amigo e me queixava de estar perdendo muito tempo na vida e que queria ter tomado decisões diferentes. Ele riu de mim, disse que era pra eu deixar de ser tão tola e me perguntou se eu achava que ia morrer aos 26 anos.
      Menos de uma semana depois meu amigo se foi, aos 20, vítima de um acidente de transito. Meu amigo era forte, devia ter aço nos seus ossos. Ele foi atropelado, não quebrou nada, nenhuma vértebra sequer, mas bateu a cabeça muito forte no chão, feriu seu cérebro, suas idéias, seus pensamentos e seus sonhos... ele não resistiu.
      Se eu pudesse dizer alguma coisa a ele, hoje, eu lhe pediria para levar consigo um capacete, e que usasse todos os dias, ainda que fosse ridículo, só pra poder se lembrar de mim, numa prova festiva da nossa amizade. E assim, eu lhe teria hoje comigo...

      Eu gostaria de vestir todas as pessoas que amo com armaduras ou então colocá-las em um potinho e deixá-las debaixo do braço, sob a minha proteção. Pena que está tão longe de mim tal poder. Sendo assim, tenho me apegado às orações, uma vez que só Deus poderá estar onde eu não estou e proteger quem eu gostaria de proteger. Protegê-las da maldade do mundo e das pessoas. Protegê-las do acaso e do tempo. Protegê-las dos minutos de bobeira e das distrações diárias. Protegê-las de si mesmos, dos seus pensamentos e das suas ações.

      É duro amar as pessoas e ter que perdê-las. Certas coisas tinham que ser pra sempre, é muito triste vê-las partir ...

      - Marina